"Quando o tecido sai e o vemos terminado, é aí que sentimos orgulho. Não apenas eu. Toda a equipa."

01.09.2026
36 anos na estamparia e sempre a aprender
O Eduardo Carneiro chegou à Adalberto ainda jovem, à procura de trabalho. Mandaram-no para o laboratório de estamparia. Isso foi há 36 anos. Ele estudou têxteis, não o laboratório, nem a estampagem especificamente, mas algo o cativou. Uma curiosidade, um ofício, um desafio que o continuou a atrair todas as manhãs.
"Quando vim para cá era muito novo. Era o trabalho que havia. Disseram-me para ir para o laboratório de estamparia. E eu abracei aquele laboratório e estou aqui desde então."
O ofício que alguém nos passou
A estampagem convencional não se aprende num manual. Aprende-se a fazer. Ao estar ao lado de quem já sabe, a observar o que fazem, a perguntar porquê e a construir, lentamente, o instinto que leva anos a desenvolver.
Para o Eduardo, essa pessoa foi o Vicente Marques.
"Começámos do zero, a aprender com as pessoas que já cá estavam. Depois, há o gosto, porque eu estudei têxteis, e este bichinho entrou-me na pele e ficou. E sim, devo-o a uma pessoa que passou muito tempo aqui e nos ensinou, o Sr. Vicente Marques."
É assim que o ofício é transmitido numa fábrica. Não através de certificações ou programas de formação, mas através da proximidade, da paciência e da generosidade de alguém que dedica tempo a mostrar como se faz.
Ver o resultado no mundo
Após 36 anos a estampar tecido, o Eduardo Carneiro não consegue passar por uma montra ou folhear uma revista sem ver o seu trabalho de forma diferente. O padrão numa camisa. O estampado num vestido. A maioria das pessoas vê cor e design. Ele vê processo, precisão e a memória de como foi feito.
"Muitas vezes brinco com isso, quando vou a uma loja com a minha mulher e vejo um estampado da Adalberto, digo: 'Vamos embora daqui, isto faz-me lembrar o trabalho.' Mas também já fui ver preços por curiosidade, porque às vezes aqui sentimos que o nosso preço é muito baixo comparado com o valor de venda. O que nos pagam para fazer algo é muito pouco comparado com o preço final de venda."
Há orgulho nessa observação e uma consciência serena do valor que mãos experientes acrescentam a um produto acabado.
O que torna a estampagem convencional tão exigente
Cada estampado começa no laboratório. As cores são misturadas, as telas são preparadas, as receitas são escritas. Depois, passa para as máquinas e, a partir desse momento, há muito pouca margem para erro. Uma vez estampado o tecido, está feito. Não há volta a dar.
"Somos humanos e muitas coisas podem correr mal. Hoje em dia, os clientes são extremamente exigentes e temos de respeitar isso. Há erros humanos que inevitavelmente aparecem no produto final. Para evitar isso, temos de estar muito focados, muito rigorosos. Sem demasiada pressão, porque aqui a pressão é enorme, e por vezes essa pressão leva-nos a cometer erros. E uma vez estampado o tecido, está feito. O erro fica lá."
Rigor, foco e a capacidade de trabalhar com precisão sob pressão. Estas são as qualidades que definem alguém que passou 36 anos numa estamparia convencional.
O digital chegou. Ele não se preocupou.
Nos últimos anos, a estamparia digital transformou a indústria têxtil. Preparação mais rápida, mínimos mais baixos, detalhe fotográfico. Muitos na estamparia convencional sentiram o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. O Eduardo Carneiro não foi um deles.
"Vejo-o como um complemento, não como uma ameaça. A estampagem digital faz coisas espetaculares. Mas não atingiu o que a convencional consegue fazer. E, na minha opinião, nunca atingirá."
Não se trata de resistência à mudança. É a confiança de quem sabe exatamente o que o seu ofício pode fazer e onde os seus limites não são fraquezas, mas sim características definidoras.
O Trabalho que Permaneceu
"Quase todos me marcaram, mas principalmente a equipa. Uns por razões positivas, outros nem tanto. Adoro trabalhar em equipa. E há trabalhos em que vemos o resultado final e sentimos orgulho, porque eu e os meus colegas desenvolvemo-lo juntos. Muitas vezes achávamos que não íamos conseguir, e conseguimos. Esse é o desafio. E sentimos orgulho quando o superamos. Não apenas eu. Toda a equipa. Cada um deles."
Eduardo Carneiro trabalha na Adalberto Textile Solutions desde 1988. Aprendeu o seu ofício com alguém que dedicou tempo a ensiná-lo e passou os últimos 36 anos a transmitir esse conhecimento.
Inside the Machines é uma série de oito conversas com as pessoas por detrás da Adalberto Textile Solutions.
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