Inside the Machines Margarida Alves

Os operadores que estão junto à máquina são quem realmente conhece o processo. Podemos ter todo o conhecimento teórico, mas a parte prática vive com eles.

21.07.2026

Uma Bioquímica Numa Fábrica Têxtil

Margarida Alves não seguiu o caminho mais óbvio. A sua base académica é bioquímica. Não engenharia têxtil, não processos industriais. Quando chegou à Adalberto em 2022 como estudante de mestrado a escrever a sua tese, estava a entrar num mundo em que nunca tinha trabalhado.

Ficou seis meses a terminar a dissertação. Depois a empresa pediu-lhe para ficar definitivamente, como parte da equipa de engenharia de processo, focada na tinturaria.

"Vir da parte académica para um ambiente industrial foi um mundo completamente novo. Até digo na brincadeira que foi quase como um terceiro curso para mim. A minha base é bioquímica, nada a ver com têxtil. Estar aqui na Adalberto foi quase uma terceira escola. E sinto que evoluí imenso desde 2022."

Entre o Laboratório e o Chão de Fábrica

A engenharia de processo na Adalberto vive entre dois mundos. De um lado, o laboratório: análise, testes, conhecimento técnico. Do outro, o chão de fábrica: máquinas a correr, operadores a trabalhar, tecido a avançar. A Margarida move-se entre os dois, todos os dias.

"Tecnicamente, vamos aprendendo todos os dias, porque o que ontem era uma coisa hoje já pode não ser. Mas a parte das relações com as pessoas é o que mais importa no dia a dia. Os operadores que estão junto às máquinas são os que verdadeiramente conhecem o processo. Nós, como equipa técnica, podemos ter muito conhecimento teórico, mas o conhecimento prático está neles. É uma mistura dos dois: as pessoas no terreno que conhecem a prática, e nós técnicos que conhecemos mais a teoria."

Este equilíbrio, entre saber e ouvir, entre a ficha técnica e o instinto de quem opera a mesma máquina há anos,  é o coração do que a engenharia de processo faz. Não se trata de dizer às pessoas o que fazer. Trata-se de perceber o que elas já sabem, e construir a partir daí.

Quando Algo Corre Mal

Num ambiente de produção, as coisas correm mal. Os tecidos saem de forma diferente do esperado. Um processo que funcionou ontem produz um resultado diferente hoje. Quando isso acontece, começa a investigação.

"Quando aparece uma situação anómala, normalmente reflete-se na qualidade dos artigos. Primeiro tentamos encontrar uma ação corretiva no momento, para conter o problema. Mas para além disso, temos de perceber a causa raiz. Se foi uma situação esporádica ou algo recorrente. Se for recorrente, é quase certo que algo no processo está a falhar."

E por vezes a causa não é óbvia. Às vezes a única forma de a encontrar é recriar deliberadamente o problema. Provocar o erro de forma controlada, para perceber o que o desencadeia.

"Há coisas em que dizemos 'ah, é isto', um pouco por intuição, pelo que já aconteceu antes. E há coisas novas em que temos mesmo de perceber porque é que aconteceu. E a partir daí encontrar ações preventivas para não voltar a acontecer."

Construir Confiança no Terreno

Propor mudanças a um processo que tem corrido de determinada forma durante anos nem sempre é simples. As pessoas conhecem as suas máquinas. Fazem as coisas à sua maneira há muito tempo. Chegar com uma nova abordagem exige mais do que conhecimento técnico. Exige confiança.

"Não adianta chegar ao pé de um operador e dizer 'tens de fazer isto.' Se ele não se sentir envolvido, se não se sentir ouvido, dificilmente o vai fazer de boa vontade,  especialmente se for diferente daquilo a que está habituado. Por isso, primeiro explico o que queremos alcançar, qual é o objetivo. E depois ouço o que ele sugere, porque tem imenso conhecimento prático da máquina e do processo."

Esta abordagem moldou a forma como a Margarida trabalha. Num projeto atual na tinturaria, a colaboração com os operadores foi, nas suas próprias palavras, fundamental.

Ser Mulher no Chão de Fábrica

A Margarida é uma das poucas mulheres em funções técnicas no chão de fábrica da Adalberto. Quando questionada sobre se isso moldou a forma como trabalha ou constrói autoridade, a resposta é direta.

"Acho que a resposta vai ao encontro da anterior. É muito à base da comunicação, quer seja mulher ou homem. Talvez às vezes nós mulheres tenhamos de nos fazer ouvir um pouco mais. Mas aqui nunca senti isso. Sempre me senti ouvida pelos operadores. Resume-se à comunicação: explicar o que se pretende fazer, ouvir, e empatia, muita empatia pelo operador que está ali oito horas junto à máquina e conhece-a melhor do que eu."

Ainda a aprender. Ainda Aqui.

Três anos depois, a Margarida Alves descreve-se como feliz na Adalberto, mas não completamente. Diz isso com um sorriso, não como uma queixa.

"Acho que nunca se está completamente feliz. Mas é o ambiente que molda o nosso dia. E aqui sinto que faço parte de algo. Na tinturaria, noutras secções também. Sinto-me envolvida, e sinto que tenho o apoio das pessoas que estão à minha volta."

Inside the Machines é uma série de oito conversas com as pessoas por detrás da Adalberto Textile Solutions.

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